Reflexões Sobre a Dicotomia Cultural no Brasil


Não é uma questão de grande diferença de renda, mas sim, questões de aversões culturais


JORNALISTA LEO TOLOMINI – 19/9/2019 – 19h56min


É muito comum no imaginário da população brasileira que o seu principal problema enfrentado seja a questão do caos social. Muitos ganhando muito pouco e poucos ganhando muito, demasiadamente muito. Todas as críticas sociais, estatisticamente comprovadas, estão sempre fundamentadas neste espaço de debate, de divergências, onde o capital, o dinheiro é a solução final para qualquer problema imediato.

A questão do dinheiro e sua circulação igualitária é um fim, um objetivo e não um começo. Para o início de uma justa distribuição de renda é necessária uma cartografia cultural e diversificada brasileira, pois, dentro de muitas destas rotinas, não ter dinheiro, ou ter pouco, é a verdadeira solução para os problemas diários, dentro destes determinados agrupamentos sociais.

Os indígenas por exemplo, não necessitam de dinheiro para viver, precisam de terra para colher e plantar, cuidar e preservar os animais de sua fauna, em sua língua, toda a história oral necessária para a educação das novas gerações. Assim como alguns países na África, o importante é saber racionar o alimento e sua produção, a água sendo utilizada em sua máxima racionalidade. Mesmo as culturas eurocêntricas, antes da primeira guerra mundial, tinham em sua puritana modéstia a sabedoria para sobreviver às fábricas triturantes de gentes da Revolução Industrial.

Culturas do mundo reunidas em um país, um único espaço físico, com diversas identidades, isso é o Brasil e também a América Latina. Essa mistura, no caso, a falta de mistura de culturas é o que realmente causa o caos social no Brasil. Cada grupo social querendo impor suas rotinas culturais com sendo a correta, de indiscutível crítica.

Nos dias de hoje, ser branco, educado, com bom trabalho e uma família feliz faz parte de um ideal socialmente imperialista. Somente se concretiza com a sua constante e cada vez maior concentração de renda. Do outro lado dessa rotina, encontra-se estigmatizada a cultura popular, o modus como com míseros dinheiros se pode sobreviver de maneira digna, sem se corromper ou ferir os valores estabelecidos pela ética da luta diária contra a pobreza.

O rico odeia o pobre e o pobre odeia o rico. O rico odeia ser pobre e o pobre odeia ser rico. Não há sincretude cultural no encontro das diferenças sociais do Brasil, muito menos em suas migrações de classe. Para quem é socialmente rico, mesmo sem dinheiro, na miséria, continuará se comportando como rico. O pobre que enriquece financeiramente continuará pobre em suas escolhas culturais. Mesmo que haja minimamente aparentes empatias entre as classes postas, não há jamais a construção de seu limiar, de um equilíbrio sócio e prático cultural.   

No Brasil, até hoje, as relações são marcadas por diferentes povos e suas culturas originais - material, religioso e familiar. Essa cultura permeia o material, como o pensamento marxista corretamente defende, que somente o ser humano resguardado de todos as suas necessidades poderá desenvolver-se. Religioso também, pela fé em algo superior. Até mesmo a anti-religião, que não é mesma coisa que não ter fé. Este indivíduo vive a sua fé sendo vegetariano, não poluindo o meio ambiente, sendo caridoso aos animais, tendo uma vida sem drogas. Familiar, nos dias atuais, a família nuclear não se sustenta como única opção, mas sim, soma-se a ela todas a uniões em lares em que prevaleça o amor, o diálogo e o cuidado recíprocos de seus indivíduos, sejam como forem seus acolhimentos.

Assim é o Brasil, onde os valores culturais não são os mesmos hoje, mas poderão ser em um breve futuro. Pensar a sociedade brasileira é pensar como a única em todo mundo capaz de iniciar um basta aos conflitos culturais étnicos, com expressões de violência ritualizadas, com aprendizado e uma correta divisão de tarefas, deveres e rotinas de agregação. A paz sempre como um norte possível e concretizável pelo constante alinhamento de afinamento de culturas.  

Para isso há a tentativa de se criar uma identidade, esta que somente será possível com a sincretude, ser a mistura, hora de vanguarda, porém nunca passiva, nunca sem embate. A união cultural apresentará um admirável novo, uma cultura brasileira autêntica, bem no encontro, no encaixe dessas uniões culturais.

Três motivos para o Brasil estar no centro do Ocidente:

1 - A cultura Eurocentrista está em um Brasil em que sua adaptação não possui embate, a “osmose cultural”.

2 - A cultura Popular está em um Brasil em que sua adaptação é somente pelo embate contra o Eurocentrismo, vulgo Imperialismo.

3 - A cultura Brasileira é esse resultado, no mesmo instante destes encontros culturais, dessa dor, dessa progressiva falta de ausência de cada um. Um somar, uma maldade que não se justifica nem em seu exibir, nem em seu tomar, mas em um se acomodar dentro de uma fina união entre corpos, espíritos em mentes.

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